O “pire”

Ensaiávamos o “pire”, queríamos ser como aquele “negrinho matusquela”, como diria Aracy de Almeida. Tirávamos os sapatos. Íamos para o chão de taco. E de meias brancas tentávamos deslizar. Alexandre nos dava aula. Era o que mais se aproximava do “pire”. O disco rodava vezes e vezes. O “pire”ecoa nas nossas cabeças ainda hoje.



Escrito por mdr às 17h11
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Michael Jackson não morreu

Quem morreu foi Michael Jackson da Silva, que nasceu em Alumínio (SP) e trabalhava como jardineiro na mansão do rei do pop. Ou melhor:  foi Michael Jackson Correia, que, mineiro, foi tentar a vida em Los Angeles, e trabalhava na limpeza da piscina do rei do pop. Ou então: foi Michael Jackson dos Santos, que, saído de Juazeiro, fantasiou-se de Michael Jackson de verdade e estava se fazendo de rei do pop. O Michael Jackson de verdade continua escondido nos Emirados Árabes. O Michael Jackson de verdade não morreu. E não morrerá nunca para este prefeito e por esta cidade. E para a maioria de seus munícipes.



Escrito por mdr às 14h24
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Do amigo jornalista Thiago Nassa, meu companheiro de "pire":

"Para que o mundo precisava de um Peter Pan na era Pop?

Para que ter um mundo que se recusa a crescer, a amadurecer, se pode continuar numa infância eterna, sem preocupações e responsabilidades? Oras...tudo é efêmero mesmo...nada perdura, sobretudo os problemas....que fazemos questão de jogar para debaixo do tapete.

 

Para que o mundo precisava de mais um ícone de racismo? Para que ter exemplos de um negro que recusa sua própria condição racial, se temos os ensinamentos do Nobel da Paz Mandela?

 

Para que o mundo precisava de um “devorador de criançinhas”, se temos os comunistas que apregoam a igualdade social?

 

Para que tudo isso, se temos os olhos da mídia, que tudo vê? Nada passa desapercebido por essa “tela da vida em gerúndio”.....A vida está sempre ACONTECENDO, como num retrato fotográfico que enquadra a cena e repetidas vezes conta sua própria história.

 

O que as pessoas não enxergam é o entorno da imagem.....aquilo que não aparece na foto....aquilo que não está nos fatos e versões.

 

O que ninguém viu é a Rapunzel, encastelada no palácio de ouro, em meio a pratos (de porcelana chinesa) frios, com um cardápio de tormenta, servidos pelo gerundismo e sensacionalismo midiático.

 

O que ninguém viu é a Rapunzel que mostrou o talento negro, a sensibilidade, o poder de se transformar e ser melhor.

 

O ninguém viu é o grito da Rapunzel ao mundo, que clamava por libertação, entoado em notas musicais afinadas, com as mais belas melodias, coreografado em danças, movimentos e gestos que ninguém se esquece.

 

O que ninguém viu é a Rapunzel que extrapolou o gerundismo e o efêmero....

 

A tormenta do mundo é muito maior agora do que a própria existência de Michael Jackson!"    



Escrito por mdr às 14h23
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Vem, Negro, inunda essa terra com sua capacidade avassaladora. Beba com tuas águas de petróleo todo e qualquer sinal de vida. Trague toda tragédia humana e mostre a beleza do teu corpo másculo. Vem, Negro, pinte de preto a mata assassinada. Eu te espero na margem. Eu, poeta caboclo, pronto para me perder em tua correnteza de titânio.



Escrito por mdr às 11h26
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O amor ribeirinho é baratinho, em meio à escuridão traiçoeira de Breves.

Tão breve, teu corpo sobre o outro, menina, ao rito de Melody.

Meu amor, não consigo esquecer de você / foi amor à primeira vista / Foi tudo tão intenso / Eu quero te amar / Estou como criança perdida”.

“Faço sexo por óleo diesel e por hot dog”, você diz, requebrando seu quadril magro sem formas, na claridade das águas de Marajó.

Você flutua em seu casquinho, se oferece inteirinha, para os pênis adultos que navegam aflitos pelo Amazonas.

Portel, fogo nada encantado, cidade que condena ao inferno tuas meninas. O escuro quarto do diabo é ainda invisível.

“Você chupa minha xiri direitinho”, você diz, enquanto finge ser a rainha do Xirizal. “Lá no Sul se diz xereca”, goza-se aquele que rouba tua infância e tua dignidade.

Itamira foi vendida por quinhentos dinheiros. Quem é deu dono, menina? “Ora, minha mãe, quem mais poderia?”

Enquanto outras meninas marajoanas se oferecem como cartucho de prenda, à margem da vida, vastas correntezas e pensamento imperfeitos.

 Há para todos, homens, mulheres, garotos, garotas, políticos, porcos, reverendos.

Elas são compradas no ponto de táxi.

Saem bem mais barato que a corrida.



Escrito por mdr às 18h18
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Teerã não terá mais alegria

Depois de ter teus filhos

Massacrados em via pública

Neda Agha, não negue nada.

Muito menos tua liberdade

De dizer não.



Escrito por mdr às 16h01
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Ouve-se o clamor de morte nos corredores do República Park

Não há atendentes na recepção, tuas paredes escuras estão mofadas, e teus quartos exibem o vazio de uma manhã narcótica

Ali embaixo, não há um pingo de lamento no Café Vermont.

Mas eu não. Tão sóbrio e solitário como Índio Caçador, que se agacha para buscar sua presa, de costas para o Arouche.

Café preto, um pão com angústia, o resto de geleia, ou não.

A latente tristeza dos ônibus elétricos que não mais existem por ali.

E de Elis Regina na vitrine do sebo Sunset Boulevard.



Escrito por mdr às 12h15
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