A melhor e a mais perigosa das crônicas, ou críticas, é a que se escreve ‘a queima-roupa, aquela acabada de arder, recém-saída dos olhos de seu objeto. “Besouro” começa hesitante, anêmico, um tanto confuso em sua forma de narrar, precipitando o desastre narrativo e dramático de tantos e tantos filmes rodados neste país. Há uma narração excessivamente pesada e didática, para nos embutir nos tempos de Besouro, o tempo pós-saído da escravidão, ainda escravagista por excelência, como ainda hoje por vezes se pode perceber. O personagem é apresentado, há uma simulação de voo, ainda tímido e imperfeito, do inseto. Besouro cresce. A produção não se mostra das melhores. Para um início de século colonial, acaba por convencer, mas o figurino é tortuoso, por muitas vezes artificial. Assim como a maquiagem e o preparo dos atores. Mesmo assim “Besouro” é um achado. Tanto por abrir mão de figuras conhecidas da TV, como para levantar um elenco ainda cru que, como a história, termina por envolver o espectador. Antes disso ainda há um constrangedor mergulho de sapo, e a câmera, abestalhada, acompanha. Até que se chega ‘a apresentação dos santos do Candomblé e aí Besouro tem o seu maior trunfo: de contemporanizar sem apelo uma história simbolicamente rica. Culturalmente luminosa. Burramente abandonada por autores contemporâneos por se considerar “chata”, “desgastada”, por demais usada nas “Chicas das Silvas” das telenovelas. Quem quer ouvir de novo ouvir falar de engenho, de senhor de engenho, de cana de açúcar e de escravos? Pois é essencial que estejamos sempre dispostos a ouvir falar de engenho, de senhor de engenho, de cana de açúcar e de escravos. Não podemos ter medo de nossa história, de nossos símbolos, de nossas lendas e heróis bestamente desperdiçados. Besouro é um achado. E termina por convencer. A dança erótica de Besouro e Dinorá comove, emociona. Os santos do Candomblé são apresentados como heróis de quadrinhos, sem perderem sua força dramática e sua autenticidade. Besouro de fato avua. Foi chamado um chinês para dar a ele ares de o “Tigre e o Dragão” e “Kill Bill”. O que não estraga, nem prejudica o encanto da capoeira na tela. Ô meu Deus, a capoeira na tela. Por que se demora tanto para usar sua força e beleza visual. “Besouro” sabe usar. Começa pesado e desajeitado como o próprio bicho. Depois avua que é uma beleza para cima desse imaginário moderno, rico de informação, mas paupérrimo em referências, sobretudo em autorreferência. Sejamos urbanos e contemporâneos, sim. Mas sejamos também um pouco de nós mesmos. Um pouco (e muito) de Besouro.
Escrito por mdr às 21h54
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